segunda-feira, 22 de março de 2010

Água, um direito a ser preservado

"Ao longo da história e por todo mundo, os direitos da água foram moldados tanto pelos limites dos ecossistemas como pela necessidade das pessoas. A água tem sido tratada tradicionalmente como um direito natural –um direito que nasce da natureza humana – das condições históricas, das necessidades básicas ou de noções de justiça. Os direito à água como os direitos naturais não se originam com o Estado; eles surgem de um dado contexto ecológico da existência humana. Assim como os direitos naturais, os direitos á água são direitos usufrutários; a água pode ser usada, mas não possuída. As pessoas têm direito à vida e aos recursos que a sustentam, como a água." Vandana Shiva

* Por Maria Lúcia Martins
Este texto faz parte de uma série que a equipe do blog publica nesta semana da água,que começa hoje, Dia Internacional da Água

Em março de 2000, as corporações que lucram com a água doce do Planeta Terra conseguiram que a água fosse definida como uma mercadoria no segundo Fórum Mundial de Água, em Haia. Representantes de governos, em reunião paralela, não fizeram absolutamente nada para atacar com eficácia a declaração. Em vez disso, os governos ajudaram a pavimentar o caminho para as corporações privadas lucrarem com a venda da água. Desde então, algumas corporações transnacionais, apoiadas pelo Banco Mundial e pelo FMI-Fundo Monetário Internacional estão ofensivamente assumindo a administração dos serviços públicos de água.

No mês de julho do ano seguinte, para fazer frente à ofensiva das grandes corporações, 800 delegados, de 35 países, reunidos na Cúpula da Água para Pessoas e Natureza firmaram o "Tratado para Compartilhar e Proteger a Água, o Bem Comum do Planeta". O Tratado declara que “a água doce não será privatizada, comercializada ou explorada para propósitos comerciais e deve ser imediatamente isenta de todo acordo bilateral e internacional e de acordos de investimentos existentes e futuros”. Esta disposição se contrapõe à conduta dos acordos, e as corporações vêm avançando sobre os mananciais e sobre os setores onde a água é matéria industrial como o de energia, bem como sobre os meios de comunicação, para que as notícias sobre estes fatos sejam editadas conforme os interesses dos grandes grupos econômicos. Inúmeros movimentos, em todo o mundo, se organizam para lutar pela conservação da água e por manter a água como um direito.

As estimativas são de que por volta de 2025, a menos que haja uma mudança de comportamento, entre ½ a 2/3 da humanidade estará vivendo com severa escassez de água doce.

Globalização e escassez


Na maior parte das comunidades nativas, o controle e os direitos coletivos sobre a água foram a chave para a conservação e o recolhimento desse recurso. Ao criar regras e limites para o uso da água, o controle coletivo garantiu sustentabilidade e equidade. Com o advento da globalização, entretanto, controle comunitário da água está sendo corroído e a exploração privada está tomando o controle. Na Índia, como conta Vandana Shiva, sistemas tradicionais de renovação da água estão, agora, em decadência. Num estudo com 152 povoados que utilizam sistemas de recolhimento de água tradicionais, 79 estavam secos ou poluídos. Na região de Mankund, os mil poços artesianos introduzidos secaram as fontes tradicionais de água."A água está disponível apenas se as fontes de água são renovadas e usadas dentro dos limites da sua capacidade de renovação. Quando a filosofia do desenvolvimento corrói o controle comunitário e, em vez disso, promove tecnologias que violam o ciclo da água, a escassez é inevitável", alerta ela.

Nos anos 1970 e 1980, o Banco Mundial e outras agências de fomento concentraram-se em tecnologias desastrosas de abastecimento de água. Desde a década de 1990, essas agências têm insistido agressivamente na privatização e na distribuição de água baseada em critérios de mercado, os quais já prometem ter resultados igualmente catastróficos.

Vandana acrescenta que "pressuposições reducionistas sobre o desenvolvimento da água defendem que, quando se trata de utilizar recursos naturais, a natureza é deficiente e as tradições das pessoas são ineficientes. No entanto, zonas ecológicas diferentes têm sido a base de culturas e economias variadas. As zonas áridas diferentes têm sido usadas para pastoreio de forma sustentável e as zonas semi-áridas têm sido usadas para a lavoura seca com irrigação suplementar".

Democracia ecológica e direitos à água

Todos concordam que o mundo está enfrentando uma crise séria de água, constata Shiva e adverte: "há, no entanto, dois paradigmas conflitantes para explicar a crise da água: o paradigma do mercado e o paradigma ecológico. O paradigma de mercado enxerga a escassez de água como uma crise que resulta da ausência de comércio de água. Se a água pudesse ser transportada e distribuída livremente por meio de mercados livres, é o que sustenta esse paradigma, ela seria transferida para regiões de escassez e preços mais elevados levariam à conservação desse recurso. Pressuposições de mercado são cegas aos limites ecológicos impostos pelo ciclo da água e aos limites econômicos impostos pela pobreza. A superexploração da água e a ruptura de seu ciclo criam uma escassez absoluta que os mercados não podem substituir com outras mercadorias. A pressuposição da substituição é, de fato, central na lógica da comoditização".

Shiva destaca que "mais do que qualquer outro recurso, a água precisa permanecer como um bem comum e necessita do gerenciamento comunitário. Com efeito, na maioria das sociedades, a propriedade privada da água foi proibida. Textos antigos, como o Código Justiniano, mostram que a água e os recursos naturais são bens públicos: "Pela lei da natureza essas coisas são comuns à humanidade - o ar, a água corrente, o mar e consequentemente o litoral [Código Justiniano 2,1.1].”

Os direitos comunitários são necessários tanto para a ecologia quanto para a democracia. Controle burocrático por parte de agências externas e distantes e controle de mercado por conta de interesses comerciais e por corporações desestimulam a conservação. Comunidades locais não conservam a água se as agências externas - burocráticas ou comerciais - são as únicas beneficiárias de seus esforços e recursos.

Shiva é categórica: "preços mais altos sob condições de livre mercado não levarão à conservação". Por causa das enormes desigualdades econômicas, há uma grande possibilidade de que os economicamente poderosos desperdiçarão água, enquanto os pobres pagarão o preço por esse desperdício. Diretos comunitários são um imperativo democrático - eles mantêm os estados e interesses comerciais responsáveis pelo que acontece e defendem os direitos das pessoas à água, sob a forma da democracia descentralizada, considera a ativista.

A conservação não interessa aos grandes exploradores, pois pode manter e prover recursos hídricos locais e mesmo regionais que dispensam grandes obras e/ou grandes projetos de tratamento. Para as corporações, quanto maior a escassez, maior a oportunidade de novos negócios e também maior o preço da água, na torneira ou na garrafa.

domingo, 21 de março de 2010

O Brasil é o maior ''exportador'' de água virtual do mundo. Entrevista especial com John Anthony Allan

Por Graziela Wolfart

“A forma como usamos a terra e os recursos hídricos no passado negligenciava os impactos ambientais impostos pela agricultura intensiva. Esses custos não se refletem nos preços das commodities alimentícias vendidas e compradas internacionalmente, e nem mesmo nos preços dos alimentos no mercado interno. O Brasil não deveria correr para satisfazer a demanda global por sua água, colocando commodities no mercado mundial a preços que impossibilitem que o ambiente das terras e dos recursos hídricos do Brasil seja usado de modo sustentável”. Essas são as palavras do cientista britânico John Anthony Allan, escritas por ele na entrevista que aceitou conceder, por e-mail. Conhecido no mundo inteiro por ter criado o conceito de água virtual, explicado a seguir, Tony Allan identifica que as grandes economias de água podem ser feitas no setor agrícola, onde os volumes de água usados são vastos. “Os agricultores tomam conta de toda a água verde. Junto com os engenheiros, eles tomam conta de toda a água azul usada na agricultura irrigada. Junto, isto representa 80% da água usada no mundo inteiro. Os agricultores detêm a chave para a segurança da água – especialmente no Brasil”, alerta.

John Anthony Allan é professor no King’s College de Londres e na Escola de Estudos Orientais e Africanos. Pioneiro em conceitos chave para a compreensão e a divulgação das questões referentes à problemática da água e à sua conexão com a agricultura, as mudanças climáticas, a economia e a política, Tony Allan foi laureado com o “Prêmio da Água de Estocolmo 2008” (2008 Stockholm Water Prize).

Confira a entrevista.

O senhor pode explicar o conceito de “água virtual”? Como fazer o cálculo de quanto cada produto consume de água?

John Anthony Allan - Os alimentos e outras commodities necessitam de água para serem produzidos. As commodities alimentícias possuem um teor de água particularmente grande. Por exemplo, as seguintes quantidades de água são necessárias para produzir 1 quilo de:

Trigo: 1.300 litros
Milho: 900
Arroz: 3.400
Carne de frango: 3.900
Carne de porco: 4.800
Carne de ovelha: 6.100
Carne de gado: 15.500
Algodão: 11.000

Ou a seguinte quantidade de litros de água é necessária para produzir 1 unidade dos seguintes produtos:

Um litro de leite: 1.000 litros
Uma xícara de chá: 30
Uma xícara de café: 140
Uma folha de papel: 10
Uma fatia de pão: 40
Uma maçã: 70
Uma camiseta: 2.700

A água embutida nisso é chamada de água virtual.

Quando uma commodity é exportada de um país para outro, o país importador se torna seguro em termos de água e alimentos contanto que tenha uma economia que seja diversificada, e as pessoas tenham meios de vida que lhes possibilitem comprar alimentos importados. Das 210 economias existentes no mundo, ao menos 160 são economias “importadoras” de água virtual. Há apenas cerca de 10 economias que têm um excedente de água significativo que pode ser “exportado” em forma virtual. Esses países incluem os Estados Unidos, o Canadá, a Austrália, Argentina e França. O Brasil é, em potencial, o maior “exportador” de água virtual do mundo.

Quais as maiores consequências ambientais para um país como o Brasil, a partir desta consideração de ser o maior exportador de água virtual do mundo?

John Anthony Allan - A forma como usamos a terra e os recursos hídricos no passado negligenciava os impactos ambientais impostos pela agricultura intensiva. Esses custos não se refletem nos preços das commodities alimentícias vendidas e compradas internacionalmente, e nem mesmo nos preços dos alimentos no mercado interno. O Brasil não deveria correr para satisfazer a demanda global por sua água, colocando commodities no mercado mundial a preços que impossibilitem que o ambiente das terras e dos recursos hídricos do Brasil seja usado de modo sustentável.

Como podemos fazer para que essa “água virtual” seja contabilizada e informada para os consumidores? O senhor acredita que isso ajudaria na questão da economia da água?

John Anthony Allan - Será muito difícil fazer com que o valor da água usada na produção de alimentos de origem vegetal e de carne se reflita no preço dos alimentos. Nem os agricultores que produzem as commodities, nem os comerciantes que as tornam disponíveis nas economias importadoras de alimentos, nem seus clientes e consumidores estão conscientes do teor de água embutida nelas e de seu valor. É improvável que a regulamentação cause algum impacto porque os números sobre o teor de água são muito imprecisos e podem ser facilmente questionados. Educar os consumidores é uma forma mais provável de mudar seu comportamento e sua forma de consumo. Os desafios políticos são imensos, especialmente numa economia de mercado.

Qual a importância de se divulgar a “pegada da água” e que tipo de ações deve ser pensado como resposta aos resultados apresentados por essa “água virtual”?

John Anthony Allan - O conceito de “pegada de água” é uma forma muito eficaz de contribuir para conscientizar os agricultores, negociantes, supermercados e consumidores a respeito do teor de água das commodities que eles produzem, vendem ou compram e consomem. A comparação da pegada de água de uma dieta pesada à base de carne de gado que consome 5 m3 de água por dia com a de um vegetariano que consome 2,5 m3 de água por dia apresenta um resultado crasso. Tem-se mostrado que uma dieta pesada à base de carne de gado e outros produtos de origem animal é muito ruim para a saúde de um indivíduo. Ela também é muito ruim para o meio ambiente aquático.

De que forma o tratamento de esgotos contribui para a economia da água? Quanto se gasta de água para fazer um saneamento básico de qualidade?

John Anthony Allan - A maior parte da água é usada para produzir alimentos. Mais de 80% da água que um indivíduo ou uma economia necessita são usados na produção de alimentos. 70% dessa água é água verde – ou seja, água proveniente de chuva que é retida no solo. A maior parte da produção agrícola do Brasil vem dessa água que está no solo. Os outros 30% são constituídos de água azul ou água doce. A água doce vem dos rios e do lençol freático. A água que usamos em casa e para trabalhos que não a agricultura corresponde a entre 10 e 20% da água de que um indivíduo ou uma economia necessita. A proporção depende de quão industrializada é a economia e de quão elevado é o padrão de vida. Os efluentes líquidos e o esgoto são gerados pelo uso doméstico e industrial de água. Mediante um investimento considerável, os efluentes podem ser reutilizados. Mas é preciso lembrar que esses efluentes são sempre uma pequena proporção do total de água de que a sociedade necessita. É cada vez mais possível e apropriado que as economias avançadas invistam na reutilização de efluentes. Mas a decisão política de alocar verbas para investir no tratamento de efluentes urbanos tem de ser ponderada levando em conta o valor do investimento em outros setores, como educação, saúde, comunicações, energia etc. As grandes economias de água podem ser feitas no setor agrícola, onde os volumes de água usados são vastos. Os agricultores tomam conta de toda a água verde. Ao lado com os engenheiros, eles tomam conta de toda a água azul usada na agricultura irrigada. Junto, isto representa 80% da água usada no mundo inteiro. Os agricultores detêm a chave para a segurança da água – especialmente no Brasil.


Tradução é de Luís Marcos Sander.


Fonte: MST / IHU Online.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Blog da reforma agrária já está no ar

Estreou na última quinta-feira, dia 18, o blog da rede de comunicadores em apoio à reforma agrária e contra a criminalização dos movimentos sociais. Está foi uma das decisões da reunião de montagem da rede, que ocorreu na semana passada na sede do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e que teve a presença de cerca de 100 pessoas, entre jornalistas, radialistas, blogueiros, estudantes e radiodifusores comunitários.

O endereço é http://www.reformaagraria.blog.br/

Um dos objetivos editoriais do blog é acompanhar os trabalhos da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI), instalada no final do ano passado por imposição da bancada ruralista que visa criminalizar os lutam por terra no país. A nova página também servirá para divulgar experiências bem sucedidas de reforma agrária, de assentamentos rurais e de agricultura familiar, que a mídia privada omite. Ela terá sessões fixas, como o raio-x do latifúndio, impactos do agronegócio, quem apóia a reforma agrária, entre outras.

O blog pretende ser um ponto de referência para outros sítios, blogs e publicações que tratam deste tema. Ele é aberto à colaboração de todos os que entendem a urgência da reforma agrária e que não aceitam a criminalização da luta pela terra promovida pelos latifundiários do campo e da mídia. Para aderir à rede de comunicadores basta acessar a página e fazer o cadastro. Contribua com textos, fotos, vídeos.

Os responsáveis pelo blog são os signatários do manifesto de criação da rede. Reproduzo o manifesto abaixo:

Está em curso uma ofensiva conservadora no Brasil contra a reforma agrária, e contra qualquer movimento que combata a desigualdade e a concentração de terra e renda. E você não precisa concordar com tudo que o MST faz para compreender o que está em jogo.

Uma campanha orquestrada foi iniciada por setores da chamada “grande imprensa brasileira” – associados a interesses de latifundiários, grileiros - e parcelas do Poder Judiciário. E chegou rapidamente ao Congresso Nacional, onde uma CPMI foi aberta com o objetivo de constranger aqueles que lutam pela reforma agrária.

A imagem de um trator a derrubar laranjais no interior paulista, numa fazenda grilada, roubada da União, correu o país no fim do ano passado, numa ofensiva organizada. Agricultores miseráveis foram presos, humilhados. Seriam os responsáveis pelo "grave atentado". A polícia trabalhou rápido, produzindo um espetáculo que foi parar nas telas da TV e nas páginas dos jornais. O recado parece ser: quem defende reforma agrária é "bandido", é "marginal". Exemplo claro de “criminalização” dos movimentos sociais.

Quem comanda essa campanha tem dois objetivos: impedir que o governo federal estabeleça novos parâmetros para a reforma agrária (depois de três décadas, o governo planeja rever os “índices de produtividade” que ajudam a determinar quando uma fazenda pode ser desapropriada); e “provar” que os que derrubaram pés de laranja são responsáveis pela “violência no campo”.

Trata-se de grave distorção.

Comparando, seria como se, na África do Sul do Apartheid, um manifestante negro atirasse uma pedra contra a vitrine de uma loja onde só brancos podiam entrar. A mídia sul-africana iniciaria então uma campanha para provar que a fonte de toda a violência não era o regime racista, mas o pobre manifestante que atirou a pedra.

No Brasil, é nesse pé que estamos: a violência no campo não é resultado de injustiças históricas que fortaleceram o latifúndio, mas é causada por quem luta para reduzir essas injustiças. Não faz o menor sentido...

A violência no campo tem um nome: latifúndio. Mas isso você dificilmente vai ver na TV. A violência e a impunidade no campo podem ser traduzidas em números: mais de 1500 agricultores foram assassinados nos últimos 25 anos. Detalhe: levantamento da Comissão Pastoral da Terra (CPT) mostra que dois terços dos homicídios no campo nem chegam a ser investigados. Mandantes (normalmente grandes fazendeiros) e seus pistoleiros permanecem impunes.

Uma coisa é certa: a reforma agrária interessa ao Brasil. Interessa a todo o povo brasileiro, aos movimentos sociais do campo, aos trabalhadores rurais e ao MST. A reforma agrária interessa também aos que se envergonham com os acampamentos de lona na beira das estradas brasileiras: ali, vive gente expulsa da terra, sem um canto para plantar - nesse país imenso e rico, mas ainda dominado pelo latifúndio.

A reforma agrária interessa, ainda, a quem percebe que a violência urbana se explica – em parte – pelo deslocamento desorganizado de populações que são expulsas da terra e obrigadas a viver em condições medievais, nas periferias das grandes cidades.

Por isso, repetimos: independente de concordarmos ou não com determinadas ações daqueles que vivem anos e anos embaixo da lona preta na beira de estradas, estamos em um momento decisivo e precisamos defender a reforma agrária.

Se você é um democrata, talvez já tenha percebido que os ataques coordenados contra o MST fazem parte de uma ofensiva maior contra qualquer entidade ou cidadão que lutem por democracia e por um Brasil mais justo.

Secretaria Geral
Escritório Nacional do MST/RJ

A crise da imprensa é ética

Emir Sader

Chovem os artigos na imprensa internacional sobre a crise da imprensa, enquanto crescente numero de jornais fecham, despedem jornalistas, diminuem suas tiragens. Os diagnósticos, ao serem feitos, em grande medida por pessoal ligado a essa imprensa, não conseguem sair do rame rame usual: a difusão da internet grátis, dos jornais grátis, etc., etc., seriam os responsáveis. Será?

Mas um artigo, desta vez da prestigiosa publicação norteamericana The Nation ? ?How to save jornalism??, de John Nichols e Robert W. McChesney, de 25 de janeiro deste ano - aponta para um diagnóstico um pouco diferente. Em primeiro lugar, classifica o jornalismo como um ?bem público?, considerando que deveria ser considerado da mesma forma que se considera a educação, saúde pública, o transporte, a infra estrutura.

Considerado dessa maneira, o fato de ser financiado por publicidade já desvia ou deforma esse caráter público, porque a publicidade visa interesses privados, venda de mercadorias, prestação de serviços na esfera privada. Essa concepção remeteria ao tema do financiamento público da imprensa.

Quanto ao diagnostico que aponta para a difusão da internet, os autores recordam que a crise começou muito antes, já nos anos 1970, apontando para a busca de maximização dos lucros pelas grandes corporações, que foram tornando as mídias empresas como outras quaisquer de seu imenso leque de investimentos, tendo como resultado, entre outros, a diminuição da qualidade e a banalização do jornalismo, cada vez mais longe de ser um bem público.

As propostas atuais de tentativa de superação da crise financeira, apontam normalmente para o pagamento das páginas de internet, dado que a publicidade nestas representa um ganho de 10% do que se perde nas publicações impressas. No entanto, apenas um que outro jornal que acredita na sua capacidade de manter audiência sendo pago ? como o The Wall Street Journal ? se arriscam nessa direção. Ainda assim é duvidoso que possam arrecadar uma proporção minimamente significativa do que perdem com a diminuição da tiragem e, principalmente, com a retração da publicidade, canalizada para outros meios.

Na realidade a crise da imprensa é a da perda de credibilidade, é uma crise ética, de sua transformação em um instrumento da publicidade, do ponto de vista econômico, e da sua constituição em mentor político e ideológico da direita. Os dados, publicados recentemente, demonstram como todos os grandes jornais brasileiros perdem leitores, mas sobretudo perdem influência. Embora todos os maiores jornais e quase todas as revistas semanais ? à exceção da Carta Capital ? sejam de férrea oposição ao governo, este mantêm 83% de apoio e eles conseguem apenas 5% de rejeição do governo. Temos aí uma idéia da baixíssima produtividade desses órgãos de oposição.

Jornais progressistas como La Jornada, do México, Página 12, da Argentina, Público, da Espanha, que gozam de alta credibilidade, se consolidam e se expandem, tendo páginas abertas amplamente visitadas. Seu patrimônio é sua ética social, suas posições políticas democráticas, o espírito pluralista dos seus comentaristas, a originalidade da suas coberturas jornalísticas.

quinta-feira, 18 de março de 2010

O futuro da mídia progressista nos Estados Unidos

Um novo livro destaca como a mídia progressista e independente chegou
a ter a maior influência de sua história nos Estados Unidos. Essa
mídia já alcança um público de milhões de pessoas todos os dias e está
decididamente mais influente do que nunca. Antigamente seria
considerado um grande sucesso se uma revista progressista obtivesse
mais de 200 mil assinantes por mês. Mas hoje há dúzias ou mais de
blogs, revistas e sites de notícias online, nos EUA, que têm mais de 1
milhão de leitores únicos por mês. O artigo é de Don Hazen.

Don Hazen - AlterNet

Enquanto o establishment jornalístico, e mesmo progressistas, como Bob
McChesney e John Nichols lutam pelo que resta do declínio dos anúncios
dirigidos ao jornalismo corporativo, os ativistas e jornalistas Tracy
Van Slike e Jessica Clark escolheram contar uma história diferente,
mais positiva, sobre o futuro da mídia nos EUA.

No seu livro "Além da Câmara de Eco: reformulando a Política através
das redes de mídia progressista" [Beyond the Echo Chamber: Reshaping
Politics Throug Networked Progressive Media] (New Press), os autores
nos levam a uma jornada pela relativamente recente (dos últimos 8 anos
para cá) surgimento da mídia progressista e independente. A conclusão
a que chegam é inegável: sob qualquer ponto de vista, o que conhecemos
por mídia progressista e netroots, alcança um público muito maior –
milhões de pessoas todos os dias - e está decididamente mais influente
do que nunca.

Antigamente seria considerado um grande sucesso se uma revista
progressista obtivesse mais de 200 mil assinantes por mês. Mas hoje há
dúzias ou mais de blogs, revistas e sites de notícias online que têm
mais de 1 milhão de leitores únicos por mês. A recém formada rede Ad
Progress www.adprogress.com, fundada por AlterNet [www.alternet.org],
The Nation [www.thenation.com] e Mother Jones [www.motherjones.com], a
qual se juntaram American Prospect [www.prospect.org], The New
Republic[www.tnr.com] e outros têm mais de um milhão de leitores. E, a
propósito, a mídia progressista não está em crise, principalmente
porque não depende de uma única fonte de receita – os anúncios -, como
acontece à mídia corporativa; em vez disso, é frequentemente
financiada por uma mistura de subvenções, doações de leitores, vendas
de anúncios e lista de parceiros do vasto setor do ativismo não
lucrativo.

Lideradas por fazedores de mídia criativa agressiva, como Robert
Greenwald, da Brave New Films, Markos Moulitsas do The Daily Kos, Jane
Hamsher do FireDogLake, John Byrne da Raw Story e Mark Karlin da
BuzzFlash, a nova mídia progressista usa uma série de estratégias e
táticas muitíssimo mais agressivas e orientadas para o ativismo do que
o pequeno universo das revistas impressas que dominaram a mídia
progressista por longo período (Heck, a Revista da The Nation, tem 145
anos).

Mas, antes que o establishment da mídia progressista se tornasse tão
convencido do seu papel, há ainda fraquezas maiores e nuvens negras no
horizonte. Clark e Van Slyke não se esquivam dos obstáculos, dedicando
a melhor metade do livro a analisar os desafios do futuro com
histórias de sucesso e promovendo modelos de redes sociais e
colaboração que eles acham que podem fortalecer a influência recém
desoberta da mídia progressista.

O que é mídia progressista?
A mídia progressista é feita por um vasto conjunto de entidades de
todos os tamanhos e formatos. Mas, com larga vantagem, sua maior
audiência é online.

A mídia progressista é ideologicamente diversa, indo do liberal ao
radical. Grosso modo, as milhares de pessoas que fazem mídia
progressista acreditam em tornar o mundo um lugar melhor através dos
seus esforços midiáticos. Elas estão lutando por uma sociedade mais
igualitária e justa, pela democratização da informação, pela
transparência no exercício do poder público e pela defesa de questões
sociais, cobrando responsabilidades e prestações de contas aos
responsáveis (para falar de alguns dos valores que os progressistas
cultivam). Muitas das entidades de mídia progressista praticam o
jornalismo de opinião e a reportagem investigativa, enquanto outras
estão muito mais voltadas para a agitação e propaganda altamente bem
sucedidas, organizando táticas para chamar a atenção para questões e
causas.

E o termo progressista é um balaio de gatos. Há muitas diferenças
entre esses grupos, na filosofia, no tipo de jornalismo praticado, na
orientação ideológica e na estrutura de negócios. Algumas dessas
diferenças podem não ser tão significantes para um não-iniciado, mas
dentre os praticantes dessas mídias há alguns que merecem ser
anotados. Por exemplo, há um abismo entre o imensamente visitado
Huffington Post [www.huffingtonpost.com] e entidades menores, com foco
mais restrito, como o Grit TV www.grittv.org de Laura Flander, ou o
ColorLines Magazine[www.colorlines.com], ou ainda a reunião de alguns
em portais de mídia progressista, como Mother Jones Magazine, The
Nation e o influente programa de rádio e tevê de Amy Goodman,
Democracy Now![www.democracynow.org]. O Huffington Post, que tem dez
vezes mais visitação que os restantes (com exceção do Salon.com) está
na liderança das mídias com visão progressista, desfrutando de uma
equipe de qualidade escrevendo, e da voz influente de sua fundadora,
Arianna Huffington.

A genialidade do Huffington Post é que, virtualmente, todo
comentarista liberal progressista com algo a dizer ou uma idéia a
comunicar sente que precisa “blogar” no “Huff Po”, embora muita gente
termine levando seus textos para o site, fazendo com que muito
conteúdo fique disperso e seja perdido. Ainda, o Huffington Post é a
carteira de uma grande quantidade notícias sobre celebridades, fofocas
e coberturas desse tipo, como as infames votações em que leitores
podem escolher o “mais engraçado de Hollywood” ou o melhor decote na
entrega do prêmio Globo de Ouro. Não surpreendentemente, essas coisas
são sempre muito populares.

Embora a influência da mídia progressista seja crescente e a sua
audiência, maior do que nunca (eles chegam até a terem representação
na TV corporativa, como é o caso de Rachel Maddow, Keith Olbermann e
Ed Schulz), a defesa justificável em Beyond the Echo Chambers não é
toda a história. O fechamento recente da rádio Air America nos lembra
que nem tudo vai bem no universo da mídia progressista. De fato, há
vários problemas fundamentais muito similares [nos veículos dessa
mídia], em termos de um futuro de longo prazo.

A primeira questão é a demografia. Embora haja algumas pequenas
organizações de mídia tocadas por pessoas negras, a imensa maioria das
organizações midiáticas com recursos tem audiência predominante de
pessoas brancas, bem-educadas, quase sempre com mais de 60% de homens,
com idades que abarcam a geração baby boomer [nascidos entre 1945-63].
Isso reflete a maioria da audiência que segue mais de perto as
notícias da mídia corporativa, e a mídia de direita conservadora. Esse
fato demográfico é o que se expressa na visitação de blogs, revistas
de opinião e em sites de notícias. As consequências são duplas.
Primeiro, a mídia progressista, a despeito de seus valores, reflete o
universo masculino branco. (Há exceções óbvias de lideranças de
audiência, como Katrina vanden Heuvel, na The Nation e o time
editorial feminino de Monika Bauerlein e Clara Jeffries no Mother
Jones, enquanto o Women's Media Center – Centro de Mídia da Mulher -,
sob a nova direção de Jehmu Greene trabalha para melhorar a situação
de um longo período de desequilíbrio quando se trata de articulistas
mulheres.

A esmagadora brancura não é um valor progressista; uma falta de
diversidade embaraça a mídia progressista há décadas, como nas
questões de classe, dado que a mídia progressista tem sido sempre o
lar de elites, em sua maioria altamente educadas. Clark e Van Slyke
enfrentam esse desafio no capítulo inteligentemente intitulado “Pale,
Male and Stale” (Pálido, Masculino e Batido). Focando sempre o lado
positivo das coisas, os autores citam o crescimento da vida online da
comunidade afro-americana, com alguns blogs populares. Então, há
campanhas altamente bem sucedidas da Color of Change
(http://colorofchange.org/) [Organização cujo slogan é mudando a cor
da democracia, em inglês]. No ano passado, a organização lançou uma
campanha contra a cobertura racista da Fox News, pressionando dezenas
de anunciantes a abandonarem o programa de Glenn Beck e o ranço
diabolicamente racista do demagogo favorito de Rupert Murdoch. E,
liderados por Roberto Lovato, um veterano da mídia progressista, a
www.presente.org instrumentalizou a pressão para que o programa do
anti-imigrante Lou Dobbs saísse do ar.

Essas conquistas dão uma dimensão da influência do setor progressista
e da sua estratégia sofisticada nas questões de raça. Mas elas também
sugerem que há uma mistura fundamental entre várias organizações e
táticas de mídia online, que borram as fronteiras entre o jornalismo e
o puro ativismo. Se essa mudança é o melhor para a evolução da mídia
progressista é um debate que eu deixo para depois, mas é claramente
verdade que os nossos maiores sucessos foram alcançados via esforços
que muitos não chamariam de jornalismo, ou mesmo mídia, mas uma nova
forma de organização que usa os dispositivos da mídia na internet.

Um segundo desafio é o financiamento. Embora a mídia progressista vá
melhor das pernas do que a mídia corporativa, porque não é dependente
de anúncios, ela nunca foi bem financiada por fundações ou indivíduos
ricos (embora a sobrevivência de veículos mais antigos da mídia
progressista dependam da lealdade e da estada no poder de alguns
doadores individuais-chave). E isso que a grande recessão só está
encolhendo as doações das fundações.

Um caso de grande sucesso em financiamento é a história do Media
Matters [www.mediamatters.org], que acompanha as transgressões da
mídia corporativa e de direita. Empreendimento importante na mídia
ecológica em geral, Media Matters beneficiou-se muito de doações de
parte da Democracy Alliance www.democracyalliance.org, um grupo de
doadores progressistas com muito dinheiro.

Mas, no maior financiamento pessoal recente de mídia independente, as
bilionárias Herb e Marion Sandler escolheram criar o ProPublica
http://www.propublica.org, com 10 milhões de dólares por ano, pondo um
ex-editor do Wall Street Journal ao custo de 550 mil dólares por ano.
Propublica tende a ser fóbico quanto a todas as coisas progressistas.

Propublica emprega alguns bons jornalistas e produz um trabalho de
qualidade. Mas a organização é constituída no antigo modelo de:
“produzir trabalho investigativo e, de alguma maneira, magicamente, o
problema descoberto será resolvido”. Falta-lhes investimento
substancial em marketing, promoção e organização na internet. Todos
esses elementos são essenciais para que se consiga uma mudança
política numa era dominada por milhares de lobistas e de relações
públicas propagandistas e centenas de milhões de dólares protegendo o
interesse de todo e qualquer interesse imaginável.

O terceiro desafio é provavelmente o mais fundamental. A despeito
desses sucessos recentes, a mídia progressista ainda não está pronta
para chegar aonde pode travar uma batalha real com a mídia de direita.
Muitos estão familiarizados com o poder da Fox e de Rupert Murdoch,
com a imensa audiência de Rush Limbaugh e dezenas de outros jogadores
de direita. E há muito mais direitosos online e nas revistas.

Os conservadores sempre investiram muito dinheiro na mídia e nas
comunicações, enquanto muito do dinheiro progressista se destina a uma
miríade de questões da preferência de doadores individuais. É como se
eles de alguma maneira contassem com a mídia establishment para
fustigar a mídia de direita. Bem, nós sabemos como isso tem
funcionado. Muitas questões liberais são recepcionadas por
conservadores, e negligenciadas por uma aparentemente super tímida
administração Obama.

Uma série de números ilustra o problema. Enquanto progressistas vibram
felizes com o sucesso da MSNBC e de Rachel Maddow, e cada vez mais
estejam grudados na tevê todas as noites, o domínio continuado da Fox
News, na tv a cabo é acachapante. Eis os números da audiência
comparados no dia 27 de janeiro, quando Obama falou à nação, de acordo
com o site TV by the Numbers: Bill O'Reilly marcou 4.067 000
espectadores, Glenn Beck alcançou 3.140 000 espectadores, e Sean
Hannity obteve 3. 636 000 espectadores – audiências gigantescas,
aproximadamente três vezes o tamanho de Keith Olbermann (1. 159 000
espectadores) e Rachel Maddow (883 000 espectadores). Clark e Van
Slyke tratam do problema no capítulo “Luta contra a Direita”,
destacando o sucesso da Brave New Films perturbando a Fox News. Mas,
como sabemos muito bem, a avassaladora mídia Murdoch continua a
bradar, chafurdando na lama.

O capítulo 8 do livro "Além da Câmara de Eco", intitulado “Assembléia
do Coro Progressista”, analisa as características do trabalho do
FireDogLake [www.firedoglake.com] e inclui elementos de uma entrevista
comigo, na qual tento descrever o pensamento por trás da AlterNet.org.

Se você quiser uma visão compreensiva de muitas mídias progressistas
bem sucedidas ao longo dos últimos 8 anos, por favor compre uma cópia
de Beyond the Echo Camber. Há desafios imensos pela frente, os quais
Van Slyke e Clark conhecem muito bem. Porém, os autores insistem que
há muito mais resultado em construir alternativas e, usando as novas
ferramentas online – Facebook, Twitter e muitas outras – os
progressistas podem se mover para um estágio de luta de longo prazo
por uma sociedade melhor.

Nota da Redação: A Media Consortium (www.themediaconsortium.org) é uma
rede de mídias alternativas que criaram uma espécie de associação, nos
moldes da recém criada Altercom, no Brasil, da qual Carta Maior faz
parte.

Tradução: Katarina Peixoto

quarta-feira, 17 de março de 2010

MULHERES

Por Laerte Braga


Na opinião de um arcebispo católico o “feminismo” só se justifica se as mulheres “tomarem a vida como filhas de Maria”. Não é o que pensa a “sister” Fernanda. Atendendo a um apelo da família resolveu soltar-se no programa BBB. Dançou de forma sensual. A, outra, ex-PM fez um strip tease e ficou só com a parte inferior do biquíni.

A família democrática, cristã e ocidental vota, mais de 60 milhões de ligações, para os telefones da arena contemporânea. Eliminar esse ou aquele no programa. Um frenesi “revolucionário”.

"Lembre do seu sonho e se doe a essa oportunidade: você conseguiu isso na melhor época da sua vida --solteira e começando sua profissão. Esquece o mundo aqui fora. Viva intensamente essa oportunidade surreal e não se esqueça que você é solteira e mostre o diabinho que tem dentro de você”. É um trecho da carta da irmã da “sister” interpretando o desejo e a vontade da família.

No final ao invés de uma cenoura, um milhão e meio de reais. A moça considerou a carta como uma “dica explícita”. Não só dançou, como bebeu e sem ser fumante, roubou um cigarro de um “brother” e deu umas tragadas.

É dentista, não deve conhecer aquele creme dental que protege você doze horas por dia, contra doze problemas bucais. Breve vai estar na telinha estalando os dentes.

Herbert Viana em texto postado na internet – “pelo amor de Deus, eu não quero usar ninguém, nem falar do que não sei, nem procurar culpados, nem acusar ou apontar pessoas, mas ninguém está percebendo que toda essa busca insana pela estética ideal é muito menos lipo-as e muito mais piração. Uma coisa e saúde, outra é obsessão. O mundo pirou, enlouqueceu. Hoje Deus é a auto-imagem. Religião é dieta, fé só na estética, ritual é malhação”.

Inquirido, isso mesmo, inquirido sobre as mulheres às véspera do Dia Internacional da Mulher, um deputado de sobrenome Andrada (os Andradas mamam em tetas públicas desde os tempos da loba que amamentou Rômulo e Remo) disse o óbvio do absoluto vácuo cerebral –“conquistaram seu espaço sem perder a graça e a beleza femininas de mãe”.

Celso Furtado considerou a revolução feminista a mais importante do século XX. O notável brasileiro tinha formação marxista e considerava a caminhada das mulheres de maior importância que a revolução de 1917.

Ao longo dos séculos a mulher foi propriedade privada do homem. Essa caminhada foi deixando corpos e almas estendidos por esses mesmos séculos passados, num processo de lutas que certamente não pretendia e nem pretende terminar na dança sensual de uma “sister” aconselhada a liberar-se tendo em vista a cenoura no final da vara.

Existem milhões de trabalhadoras anônimas que sustentam os pilares da família cristã, democrática e ocidental, não aparecem na televisão e nem fazem danças sensuais, sequer imaginam o que seja uma lipo, sujeitam-se a privações de toda a sorte e emergem triunfantes na extraordinária capacidade do ser humano de amar a si no reconhecer o outro.

E empunham bandeiras por reforma agrária, como empunharam pelo direito do voto. Ou terminaram em fogueiras cristãs por conta de “bruxarias”. João o Inglês. Penso que o feminino de papa, papisa, existe só por conta de Joana ou Gilberta. Disfarçada de monge, por conta de sua inteligência e seus notáveis conhecimentos, sucedeu a Leão IV com o nome de João VII.

Teria morrido apedrejada em meio a uma procissão quando dava a luz a um filho gerado por outro monge. Fora fácil disfarçar a gravidez, mas impossível evitar o parto. Os cardeais gritavam “milagre, milagre”.

O arcebispo sugere que a vida seja tomada como Maria a tomou. A papisa foi apedrejada até a morte por ter “profanado o trono de São Pedro”.

Não se trata, necessariamente, da Igreja Católica, mas do que Foucauld chama de “desatino”, no que desatino representa em seu todo, historicamente, a contestação à ordem instituída.

Na exclusão. Na ordem natural dos registros não existe a papisa. Na “foto” desses arquivos ela foi apagada.

O dilema da “revolução feminista”, para usar a expressão de Celso Furtado, está exatamente na capacidade da mulher perceber que todo esse processo não pode ser, mas está sendo, apropriado pela ordem dominante dos nossos dias.

A “revolução” busca transformar seres em objetos. Um retrocesso cruel e perverso que leva ao nada. Homens e mulheres.

Uma nova Idade Média. Os shoppings e seus imensos fossos de neon e brilhos.

Ao longo da ditadura militar tombaram várias mulheres guerreiras. Capazes de indignarem-se com a bestialidade do regime. Empunharam metralhadoras como enfrentaram fogueiras em tempos passados. Ou marcharam pelo voto.

Há dias atrás Anita Leocádio Prestes, filha de Luís Carlos Prestes e Olga Benário, recusou os favores da ordem dita democrática. Pensões, indenizações, compensações.

Permaneceu íntegra e Maria em sua essência. Não aquela forjada pelos cardeais trezentos anos depois do Cristo. E desejada pelo arcebispo nos dias de hoje. Não cruza a fronteira da liberdade para ingressar nos shoppings. E tampouco veste o hábito da hipocrisia.

Nem se estende em danças sensuais numa prostituição travestida de liberdade, escondendo o real objeto. “Cacau dá água na boca”.

Nem vou falar de Maria Madalena.

São muitas “marias”.

Irmãos e irmãs, mas companheiros e companheiras numa luta que não terminou. Não tem só a cor da “revolução feminista”.

Tem todos os matizes do ser humano na busca de um outro mundo possível, onde a “ração seja exposta ao sol e dividida”.

É uma luta que permanece e não inclui, por exemplo, Hilary Clinton. Mas mulheres palestinas vítimas da boçalidade sionista. Ou mulheres muçulmanas castradas em sua essência, no que o Profeta não disse.

E mulheres objetos no capitalismo devasso dos que jogam água suja em “vadias”, de suas janelas limpas e cristalinas da verdade vaticana vendida em qualquer loja de conveniência ou numa mesa de um centro cirúrgico de lipos. A sede é em Wall Street.

E nem é uma luta solitária. É de mulheres e homens, no mesmo passo.

É pela vida, pelo ser humano. E antes que a “revolução” seja tragada pelas elites políticas e econômicas e vire uma Kátia de Abreu da vida.

É fundamental que seja Doroty Stang.

Toda a violência contra a mulher, contra qualquer ser, tem a sua raiz no “atino” dos que constroem monstruosos “hospitais/shoppings” para os “desatinados” se atinarem.

É a hora e a vez dos desatinos.

Uma outra etapa do processo. Aí sim, será uma revolução total.

A mulher cubana, a mulher vietnamita, a mulher afegã, a mulher camponesa. A mulher operária. A mulher DASPU.

Continuam a ser apedrejadas por profanarem o trono de Wall Street.

Torna-se necessário o retomar a revolução e caminhar desatinadas/os nas cidades imersas no grito silenciado do progresso transformado em alienação/exclusão nas telas/telinhas/páginas do desodorante que não exige máscaras para que os banheiros sejam limpos.

Que banheiros? Os que eles sempre sujaram.

O Dia Internacional da Mulher é de reflexão. De todo o ser humano. Há que ser a “volta dos mortos vivos” (para lembrar o extraordinário e centenário Roberto Menezes).

Eles continuam a nos impingir os bezerros de ouro. A homens e a mulheres.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Luis Fernando Veríssimo: "Às vezes, a única coisa verdadeira num jornal é a data"

Por Ayrton Centeno

Como Luis Fernando Veríssimo, 73 anos, arruma tempo para tanto trabalho não se sabe. O que se sabe é que são mais de 70 livros. E sem contar as antologias! Há de tudo: romances, novelas, quadrinhos, contos, crônicas, guias turísticos e até poesia. No final de 2009, chegou às livrarias Os Espiões, sua obra mais recente. No entanto, sua tarefa mais pesada não é essa, mas a de alimentar diariamente colunas nos jornais O Globo, O Estado de S. Paulo e Zero Hora. Autor de uma frase cáustica sobre a imprensa - "Às vezes, a única coisa verdadeira num jornal é a data" - o saxofonista, cronista, romancista, quadrinista, contista e novelista fala aqui sobre mídia, governo Lula, sua situação entre os chamados formadores de opinião, decadência dos diários tradicionais, e-books, elites e eleições.

Brasília Confidencial - Hoje, no Brasil, a mídia enxerga um país totalmente diferente daquele que a maioria da população vê. Enquanto a grande imprensa, pessimista, trabalha sobre uma paleta de escândalos, a população, otimista, toca a sua vida de modo mais tranquilo. Que país o Sr. vê?

Luís Fernando Veríssimo - A imprensa cumpre o seu papel fiscalizador, mas não há duvida que, com algumas exceções, antipatiza com o Lula e com o PT. Acho que os historiadores do futuro terão dificuldade em entender o contraste entre essa quase-unânime reprovação do Lula pela grande imprensa e sua também descomunal aprovação popular. O que vai se desgastar com isto é a idéia da grande imprensa como formadora de opinião.

BC - A grande imprensa enaltece a diversidade de opiniões, mas, curiosamente, os principais jornais do Brasil têm a mesma opinião sobre os mesmos assuntos. Este pensamento único não compromete uma pluralidade de opiniões que a mídia costuma defender quando não está olhando para si própria?

LFV - O irônico é que hoje existem menos alternativas à imprensa "oficial" do que existia nos tempos da censura. Mas as alternativas existem, e o tal pensamento único não é imposto, mas decorre de uma identificação dos grandes grupos jornalísticos do país com alguns princípios, como o da economia de mercado, o governo mínimo, etc.

BC - O senhor defende na sua coluna a reforma agrária e questiona a criminalização dos movimentos sociais. Não se sente muito solitário na mídia tratando desses temas?

LFV - Meus palpites não são muito consequentes. Acho que me toleram como a um parente excêntrico.

BC- Todas as pesquisas indicam a queda da circulação dos grandes diários dentro e fora do Brasil. Com uma longa trajetória no jornalismo, como percebe esta queda persistente, que expressa também o afastamento de uma geração do hábito de ler jornais? E como acompanha o trânsito de boa parte do público para a internet?

LFV - Quem é viciado em jornal e revista como eu só pode lamentar que a era da letrinha impressa esteja chegando ao fim, como anunciam. Mas este é um preconceito como qualquer outro. Mesmo mudando o veículo ainda existirá o texto, e um autor. Vou começar a me preocupar quando o próprio computador começar a escrever.

BC - Atribui-se a um advogado famoso, dono de clientela de altíssimo poder aquisitivo, uma reação irada ao saber que seu cliente endinheirado fora preso: "O que é isso? No Brasil só vão presos os três Ps: preto, puta e pobre!", reagiu indignado. Estamos no século 21, mas as elites parecem continuar no 19. Acredita que vá ver isto mudar?

LFV - As nossas elites não mudaram muito desde D. João VI. Vamos lhes dar mais um pouco de tempo.

BC - A atual política externa do Brasil, mais independente, colabora de alguma maneira para mudar este comportamento?

LFV - A política externa independente é uma das coisas positivas deste governo. Embora o pragmatismo excessivo possa levar a uma tolerância desnecessária com bandidos, às vezes.

BC - O escritor argentino Jorge Luís Borges dizia que a única notícia realmente nova em toda a sua vida foi a chegada do homem à Lua. O resto já tinha acontecido antes de uma ou outra forma. O que o surpreendeu, além disso? Borges tinha razão?

LFV - O sistema GPS. Finalmente, uma voz vinda do alto para guiar os nossos passos.

BC - Em que trabalha no momento ou pretende trabalhar? De outra parte, o que acha dos e-books?

LFV - Acabei de lançar um romance, chamado Os Espiões. Não tenho outro romance planejado no momento. Devem sair um livro para público juvenil, um de quadrinhos e um sobre futebol este ano, mas não sei bem quando. Quanto aos e-books, só vou aceitar quando tiverem cheiro de livro.

BC - Teremos eleições em 2010 e o governo Lula opera na proposta de um pleito plebiscitário - Nós x Eles - contrapondo os oito anos do PT contra os oito anos do PSDB. Se fosse fazer esta comparação o que diria?

LFV - De certo modo, este governo continuou o outro. E vou votar para que o próximo continue este.

domingo, 14 de março de 2010

Uma questão de justiça social

Entre os dias 3 e 5 de março, 45 especialistas discutiram a legitimidade da reserva de vagas para negros em universidade públicas no plenário do Supremo Tribunal Federal. A audiência pública foi convocada pelo ministro Ricardo Lewandowski, relator de um processo movido pelo partido Democratas (ex-PFL) contra a Universidade de Brasília (UnB), que reserva 20% das vagas disponíveis no seu vestibular a estudantes negros.

Para o jurista Fábio Konder Comparato, professor aposentado da Universidade de São Paulo e um dos defensores da proposta, a adoção de cotas raciais nas universidades públicas “não apenas é constitucional, como a ausência desse tipo de política representa uma inconstitucionalida de por omissão”. Confira, abaixo, a íntegra da entrevista concedida à CartaCapital.

CartaCapital: As cotas raciais são constitucionais?
Fábio Konder Comparato: Em primeiro lugar, é preciso saber que a reserva de vagas para negros nas universidades públicas não apenas é constitucional como a ausência desse tipo de política representa uma inconstitucionalida de por omissão. O artigo 3º, inciso III, da Constituição de 1988, é muito claro a esse respeito. “Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais”. Essa determinação constitucional não é um simples programa de intenções. É uma norma obrigatória. Enquanto os poderes públicos não cumprem esse objetivo nem tomam medidas para atingi-lo, eles estão descumprindo a Constituição. No caso específico da população negra, a desigualdade é brutal. Atualmente, pretos e pardos representam mais de 70% dos 10% mais pobres da nossa população. Eles são os pobres dos pobres. No mercado de trabalho, com a mesma
qualificação e escolaridade, os negros recebem em média a metade do salário pago aos brancos. Enquanto 58% da população branca está no Ensino Médio, há apenas 37% de negros neste mesmo nível educacional.

CC: Daí a necessidade de políticas de inclusão. Mas não necessariamente de reserva de vagas ou cotas raciais, afirmam os críticos da medida. O senhor concorda?
FKC: Essas distorções se reproduzem no Ensino Superior. Além disso, a Constituição tem outros dispositivos análogos à proposta de reserva de vagas para negros nas universidades. No artigo 7º, inciso XX, estabelece-se a necessidade de “proteção do mercado de trabalho da mulher, mediante incentivos específicos”. Da mesma forma como os opositores das cotas chamam esse tipo de política de racista, poderíamos dizer que a Constituição, nesse ponto, foi sexista. Mas não é esse o entendimento, trata-se de uma medida de proteção a uma minoria. E eu insisto num ponto: a ausência de medidas de inclusão como as cotas nas universidades é que representa um descumprimento da norma constitucional. E, devo acrescentar, se ficarmos apenas nessa política de cotas nas universidades, estaremos apenas cumprindo o mínimo daquilo que deveríamos fazer para levantar a população negra no Brasil.

CC: Por mais que se constate a vulnerabilidade da população negra no Brasil, muitos criticam a adoção de critérios raciais no ingresso à universidade. Boa parte deles defende a adoção de critérios estritamente sociais para as cotas, como a renda familiar. Há validade neste tipo de argumento?
FKC: Bom, esse é um retrato do Brasil. Nos EUA, o racismo é declarado, não é escondido. E os americanos tomam medidas para reduzir as desigualdades entre as diferentes etnias. No Brasil, o racismo é enrustido e dissimulado. E toda vez que procuramos lutar contra essa desigualdade escandalosa, os conservadores racistas se põem de pé e bradam contra a existência de “políticas racistas”. Exteriormente temos uma brilhante Constituição, equivalente a dos países mais avançados do mundo. Mas isso daqui é só para inglês ver. Internamente, cada um sabe o seu lugar. E nada de pular de galho, senão o cidadão se arrebenta no chão. Isso representa uma hipocrisia difícil de ser tolerada.

CC: Essa hipocrisia também se verifica no discurso meritocrático? Isto é, de que apenas pelo mérito os melhores alunos deveriam ingressar no Ensino Superior.
FKC: Mas os negros vão entrar na universidade de que jeito? Por decreto? Eles também não passam por um processo de seleção, pelo vestibular? Na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, quando foi criado um curso de pós-graduação em Direitos Humanos, nós criamos vagas preferenciais para estudantes negros e para deficientes físicos. No caso dos negros, o desempenho deles foi exatamente igual ao dos brancos. E eles não entraram de graça, tiveram de passar por um rigoroso processo de admissão.

CC: Para o senhor, todos esses argumentos são falaciosos?
FKC: Sim. Tanto que o partido que encampou essa ação de inconstitucionalida de das cotas é um retrato do Brasil. Eles, com o perdão da palavra, se auto-intitulam “Democratas”. É... no nome são. Mas aqui é assim, tudo é só no nome. Nada é pra valer.

CC: Mas porque este tipo de argumento sensibiliza até mesmo pessoas com histórico de militância no movimento negro, e que identificam nas cotas raciais um precedente perigoso? FKC: Eu entendo isso. Depois de quase quatro séculos de escravidão, existe na mentalidade dos pretos e pardos um complexo de inferioridade muito grande. E muitos rejeitam medidas que consideram puramente assistenciais. Mas estes representam, evidentemente, uma minoria. A grande maioria da população negra é indiferente. Eles engoliram o racismo que sofreram por séculos e não protestam. E há uma minoria esclarecida que defende a dignidade da população negra e exige o cumprimento da Constituição. Assim como há também uma minoria que não quer mexer no assunto porque, segundo eles, isso seria um reconhecimento de que os negros são inferiores. De modo geral, eles se consideram iguais em tudo em relação aos brancos. Acontece que eles não são iguais economicamente ou
socialmente. Os negros estão em situação de grande penúria e os dados que passei não são invenção, tratam-se de dados oficiais. É preciso reconhecer essa injustiça flagrante para lutar contra ela.

CC: Há uma série de ações contestando as cotas raciais na Justiça. O senhor tem conhecimento se também existem ações contra o poder público por descumprimento da Constituição, no que diz respeito à redução das desigualdades étnicas?
FKC: Na Justiça do Trabalho, fiquei sabendo de algumas poucas ações contra bancos, por haver – dissimuladamente, como sempre no Brasil – uma política de não contratação de negros. E foi só recentemente que começaram a aparecer apresentadores negros na tevê brasileira. Os últimos dados do Instituto de Pesquisas Econômicas e Aplicadas (Ipea) mostram que, em 2006, 55,2% da nossa população masculina se reconheceu como negra. E 49,7% das mulheres brasileiras também se reconheciam como negras. Levando em conta o percentual considerável daqueles que não reconhecem a sua origem africana, os negros constituem a maioria incontestável da população no Brasil. Deveríamos ficar de braços cruzados em relação à marginalização desse povo?

CC: O senhor acredita que a política de reserva de vagas para negros tende a sair das universidades e ser aplicada também no mercado de trabalho, para corrigir essas distorções?
FKC: Acho que sim. Não sei bem se os EUA podem servir de modelo, mas eles estão bem mais adiantados do que nós nesse quesito. Não só pelas políticas de inclusão nas universidades, mas também pelas ações afirmativas para garantir o emprego da população negra em instituições privadas e no serviço público. Também não podemos nos esquecer que a eleição de um presidente negro, nos EUA, é um fato extraordinário. E eles já tinham, desde o começo dos anos 60, um juiz negro na Suprema Corte. Só agora, com o governo Lula, o Brasil viu a nomeação de um juiz negro para o Supremo: o ministro Joaquim Barbosa. Nós sempre estamos atrasados em relação os EUA. Parece que só copiamos deles o que não presta, como as perversas técnicas capitalistas americanas, sobretudo no mercado financeiro.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Donos da mídia criticam participação popular e regras para setor

Em evento organizado pelo Instituto Millenium, em São Paulo, diretores e representantes dos principais veículos de comunicação do país criticaram mais uma vez os mecanismos de democracia participativa e defenderam a auto-regulação para o setor de mídia no Brasil. "No estágio atual, é melhor deixar tudo como está. O mercado tem conseguido resolver isso. Conferências são nada mais que a instrumentalização de um projeto político ideológico que tem como alvo minar a liberdade de imprensa e o capitalismo", afirmou Denis Rosenfield, articulista do Estadão.

Depois de sete horas de discurso sobre o que seriam os principais riscos para a democracia e a liberdade de expressão no Brasil de hoje, foram apresentadas as conclusões do evento promovido pelo Instituto Millenium na última segunda-feira (1). Entre elas, afirmações categóricas de uma linha de pensamento que a imprensa brasileira já não tem mais vergonha de defender:

- o setor de comunicação no país não precisa de mais leis, e sim de auto-regulação

- as Conferências Nacionais representam a estatização da opinião de minorias e são promovidas por entidades da sociedade civil cujo teor é decisivamente determinado por interesses partidários, governamentais ou ambos

- é urgente fazer um debate forte contra o Programa Nacional de Direitos Humanos para impedir que ele seja implementado

Tamanho espírito democrático foi propagado por figuras como Denis Rosenfield e Alberto Di Franco, articulistas do jornal O Estado de S.Paulo; Roberto Civita e Sidnei Basile, do Grupo Abril; Reinaldo Azevedo, colunista da revista Veja e William Waack, editor da Rede Globo, todos palestrantes convidados do 1o Fórum Democracia e Liberdade de Expressão, apoiado por entidades como a Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão), ANER (Associação Nacional de Editores de Revista), ANJ (Associação Nacional de Jornais) e Abap (Associação Brasileira de Agências de Publicidade) e realizado num hotel de luxo esta semana em São Paulo.
Alvo favorito da grande imprensa desde o final de 2009, a terceira edição do Programa Nacional de Direito Humanos foi duramente atacada durante o seminário como um "ambicioso plano de implantação de um regime autoritário no Brasil".

"O Plano (sic) agride gravemente o direito de propriedade e sugere o controle dos meios de comunicação. Será um autoritarismo cuidando da história de outro autoritarismo. E o Brasil autoritário e intolerante que o governo quer construir é sustentado nesses dois pilares: o exercício da democracia direta e o controle dos meios de comunicação", acredita Di Franco. "Você lê que o governo se dá ao direito de criar uma classificação dos programas de acordo com os direitos humanos e que o invasor de terras passa a decidir junto com o juiz se vai sair dali ou não e deixa barato? Será que ninguém tinha lido isso?", esbravejou Reinaldo Azevedo, que fez questão de assumir a paternidade das "denúncias" contra o PNDH-3 para além da polêmica da criação da Comissão da Verdade, que já ocupava as páginas dos jornais.

Para os convidados e membros do Instituto Millenium, o PNDH-3, documento construído num processo amplo de participação popular, que envolveu mais de 14 mil pessoas em todo o país - "organizações de fachada", segundo William Waack -, é uma clara escalada da intervenção do Estado na vida da população. Num texto publicado na página da organização no internet, intitulado "Panfleto contra o PNDH-3", afirma-se que "os verdadeiros direitos humanos são garantir a propriedade privada e as liberdades individuais básicas".

Tanta fúria contra o Programa surge de pouquíssimas de suas mais de 500 propostas de ação, como a que propõe um "projeto de lei para tornar obrigatória a presença no local, do juiz ou do representante do Ministério Público, à ocasião do cumprimento de mandado de manutenção ou reintegração de posse de terras, quando houver pluralidade de réus, para prevenir conflitos violentos no campo"; a que sugere "elaborar critérios de acompanhamento editorial a fim de criar um ranking nacional de veículos de comunicação comprometidos com os princípios de Direitos Humanos, assim como os que cometem violações" - algo implementado há vários anos pela Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados - e "garantir a possibilidade de fiscalização da programação das emissoras de rádio e televisão, com vistas a assegurar o controle social sobre os meios de comunicação e a penalizar, na forma da lei, as empresas de telecomunicaçã o que veicularem programação ou publicidade atentatória aos direitos humanos".

Em síntese, criar mecanismos para que os meios de comunicação cumpram o que já prevê a Constituição brasileira, que segue periodicamente ignorada por grande parte das emissoras de rádio e TV, concessionárias públicas. Para seguir nesta toada e convencer a opinião pública de que sua teoria está correta, a estratégia das grandes empresas de comunicação é travestir tais iniciativas de violadoras da liberdade de expressão.

"Vivemos um debate democrático no Brasil e o PT, por intermédio da liberdade de imprensa, propõe subverter a democracia pelos processos democráticos" , afirma Denis Rosenfield." A tendência é de implementação do PNDH-3, mas isso depende de como a sociedade vai reagir. Houve reação dos militares e da Igreja, e os dois setores foram contemplados. Então não há muito convencimento do governo em relação ao plano. Mas as entidades empresariais estão contemporizando. Se fizerem isso, serão as vítimas", sentencia.

A dificuldade fica maior quando vozes do próprio Partido dos Trabalhadores embarcam neste discurso. "Vira e mexe aparece uma vontade no governo de controlar a mídia. O Brasil tem caminhado num sistema democrático, embora apareça fatos como o PNDH (...) Não vejo necessidade de uma ação governamental pra ver se o jornal tal está respeitando os Direitos Humanos", disse o deputado federal Antonio Palocci, também presente ao evento do Instituto Millenium.

O "autoritarismo" da participação popular
Como pano de fundo da crítica ao Programa Nacional de Direitos Humanos 3 está a aversão das grandes empresas de comunicação a quaisquer mecanismos de participação popular na definição das políticas públicas no país. As conferências nacionais, realizadas há décadas no país e potencializadas nas últimas gestões do governo federal, seriam controladas, como apontou a conclusão do Fórum do Instituto Millenium, por interesses partidários e governamentais.

"Em termos éticos, 90% dessas organizações são totalitárias e querem impor um modelo e padrão da vida pública", afirmou Roberto Romano, professor de Ética e Filosofia Política da Unicamp, fonte favorita da grande imprensa quando se trata de criticar a esquerda. Não se concebe compreendê-las como espaços abertos e plurais, onde qualquer cidadão e cidadã pode manifestar sua opinião. Nem mesmo os mecanismos de democracia direta previstos no artigo 14 da Constituição Federal - que a grande mídia afirma defender - são respeitados. Para Carlos Alberto Di Franco, do Estadão, por exemplo, plebiscitos e referendos devem ser vistos como "formas excepcionalíssimas de consulta".

Para Denis Rosenfield, as conferências são "meios de participação política de movimentos sociais e sindicatos que têm objetivos específicos contra os meios de comunicação, apresentando isso de forma palatável como o controle social e a defesa dos direitos humanos, quando o alvo evidente é cercear a liberdade de expressão".

No bojo das críticas à democracia participativa, tais grupos econômicos desqualificaram, mais uma vez, a 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), da qual as mesmas entidades que organizaram o evento em São Paulo se recusaram a participar. "As entidades empresariais colocaram premissas para sua participação, já que a pauta da Confecom era revisão do marco regulatório e o controle social. Nós dissemos que não poderia ficar de fora a liberdade de expressão, a livre iniciativa, o combate à pirataria. Insistimos para que isso viesse à pauta e isso não sobreviveu à agenda das demais entidades que lá estavam", tentou explicar Sidnei Basile, do Grupo Abril, ignorando que todos esses temas foram de fato debatidos na Confecom. "Então nos retiramos. Foi bom, foi correto marcar nossos princípios. E o conto do vigário que estava sendo vendido não vigorou", afirmou o jornalista, que minutos antes taxou de cínica e hipócrita tal iniciativa do governo.

Um dos temas mais criticados pela grande imprensa nos debates da Confecom foi justamente o controle social da mídia, que voltou ao centro do alvo no Fórum do Instituto Millenium. Os dardos vieram de todos os lados.
"Estranho que, justamente quando vivemos uma democracia plena, se esteja falando em maior controle dos meios de comunicação. Mais estranho ainda é falar isso quando mais de 60 milhões de brasileiros já têm acesso à internet, onde o fluxo de idéias e opiniões é totalmente livre e felizmente impossível de censurar e controlar", avaliou Roberto Civita, para quem, talvez, baste o fluxo de idéias e opiniões na rede mundial de computadores.

"Não pode haver controles além da própria constituição de um país (...) Não se pode fazer lei a torto e a direito. E a Constituição de 88, no que diz respeito a concessões, publicidade e meios de comunicação, é muito explicita. E o que se vê hoje são tentativas de cada vez mais frequentes de se inibir a publicidade ou a notícia. (...) Tem muita gente querendo uma nova lei de imprensa. Da vontade de dizer: "faz". Não existe boa lei de imprensa em nenhum lugar", sentenciou o deputado federal pelo PDT Miro Teixeira, ex-Ministro das Comunicações.

Já o atual ministro, num rompante de seu espírito democrático, deixou claro: "em hipótese alguma o governo aceitaria uma discussão sobre o controle social da mídia. Não será permitido discutir isso do ponto de vista governamental; é algo que consideramos absolutamente intocável", afirmou Hélio Costa, para quem a Confecom - que, diga-se de passagem, aprovou resolução em defesa do controle social e da participação popular nos meios de comunicação - não determina o que o governo deve fazer, levantando apenas sugestões "que não necessariamente devem ser colocadas em prática".

A lei do mercado
O recado, em suma, é o seguinte: nada de povo e nada de lei nas comunicações brasileiras. "Quanto menos legislação melhor", disse Civita. ""No estágio atual, é melhor deixar tudo como está. O mercado tem conseguido resolver isso", garante Rosenfield. Para não parecer que o que se defendia ali era a lei da selva, Sidnei Basile, do Grupo Abril, sacou da cartola a palavra mágica: auto-regulação. "O que se pode fazer conosco só nós é que podemos definir (...) Faço o convite para uma cultura da auto-regulação e da prevalência da boa fé", disse. Alguém consegue acreditar? Di Franco emendou: "Não é o Estado que tem que ser o tutor da sociedade. O mercado e a auto-regulação fazem isso extremamente bem".

"Vejam a última resolução da Anvisa, que diz que os medicamentos não podem ficar ao alcance do consumidor. Agora o Estado deve dizer tudo o que devemos fazer e como nos comportar? Liberdade de consumo, cinto de segurança, etc. Somos idiotas? O capitalismo também se caracteriza pela liberdade de escolha em todos os seus sentidos", teorizou Denis Rosenfield.

Com a auto-regulação concordaram até Hélio Costa e o deputado federal Antonio Palocci: "Os códigos de conduta das empresas, que educam sua equipe e organizam o trabalho da maneira adequada para tratar temas sensíveis, têm funcionado de forma eficiente. Não será o Estado que dirá como fazer", disse o petista.

Mas nem esta linha redutora do dever do Estado em promover a pluralidade, a diversidade e a participação popular e combater as violações de direitos humanos nos meios de comunicação foi suficiente para que os pensadores do Instituto Millenium abrissem mão da tese de que a liberdade de expressão está mesmo ameaçada no Brasil por iniciativas do governo federal e o autoritarismo dos movimentos sociais.

"Os grandes grupos empresariais estão satisfeitos com este governo. Se preocupam apenas com seus interesses materiais imediatos e se esquecem do espírito do capitalismo: a afirmação da liberdade de escolha e de expressão. Será que não estão colocando a corda no pescoço a médio e longo prazo?", questionou Rosenfield. Quem dera...
(Bia Barbosa)

terça-feira, 9 de março de 2010

Liberdade de Expressão e seus 30 novos significados

A liberdade e em especial a liberdade de expressão é o principal argumento que empregam os burgueses para defender o sistema capitalista e atacar o sistema socialista. Nessa linha de raciocínio há um aspecto ideológico que precisa ser levado em consideração, já que a sociedade capitalista é a sociedade mais idealista que já existiu na história da humanidade. Idealista porque procura universalizar conceitos e igualar fatos e coisas que são essenciamente diferenciadas. E cito exemplo: Como membro de uma comunidade política, como fazendo parte do Estado um pobre é igual a um rico, mas como membro de uma sociedade civil um pobre é infinitamente diferente de um rico. Dizem que um pobre tem os mesmos direitos de um rico, de ir e vir, de se defender perante uma injustiça, de se manifestar publicamente mas na prática, no concreto são diferentes, pois o rico dispõe do poder econômico, da mídia, do poder repressivo do Estado e das melhores
condições jurídicas de se defender e o pobre conta apenas com a vontade de lutar e a fragilidade inata a sua condição social. Comparar tais situações e dizer que há igualdade de condições é irreal e sobretudo criminoso e mostra apenas que a burguesia como classe dominante legisla em causa própria. (Jacob David Blinder)

Os novos 30 significados

Por Washington Araújo da Agência Carta Maior

1. Liberdade de expressão é interditar todo e qualquer debate democrático sobre os meios de comunicação.

2. Liberdade de expressão só pode ser invocada pelos que controlam o monopólio das comunicações no país.

3. Liberdade de expressão é bem supremo estando abaixo apenas do Deus-Mercado.

4. Liberdade de expressão é moeda de troca nas eternas rusgas entre situação e oposição.

5. Liberdade de expressão é denunciar qualquer debate sobre mecanismos para termos uma imprensa minimamente responsável.

6. Liberdade de expressão é gerar factóides, divulgar informações sabidamente falsas apenas para aproveitar o calor da luta.

7. Liberdade de expressão é deitar falação contra avanços sociais, contra mobilidade social, contra cotas para negros e índios em universidades públicas.

8. Liberdade de expressão é cartelizar a informação e divulgá-la como capítulos de uma mesma novela em variados veículos de comunicação.

9. Liberdade de expressão é não conceder o direito de resposta sem que antes o interessado passe por toda a via crucis de conseguir na justiça valer seu direito.

10. Liberdade de expressão é explorar a boa fé do povo com programas de televisão que manipulam suas emoções e suas carências oferecendo uma casa aqui outro carro ali e assim por diante.

11. Liberdade de expressão é somente aprovar comentários aptos à publicação em sítio/blog da internet se estes referendarem o pensamento do autor e proprietário do sítio/blog.

12. Liberdade de expressão é ser leviano a ponto de chamar a ditadura brasileira de ditabranda e ficar por isso mesmo.

13. Liberdade de expressão é imputar ao presidente da República comportamento imoral tendo como fundamento depoimento fragmentado da memória de um indivíduo acerca de fato relatado quase duas décadas depois.

14. Liberdade de expressão é apresentar imparcialidade jornalística do meio de comunicação mesmo quando os principais jornalistas fazem de sua coluna tribuna eminentemente partidária.

15. Liberdade de expressão é fazer estardalhaço em torno de um sequestro que não ocorreu há quase 40 anos com a clara intenção de tumultuar o processo político atual.

16. Liberdade de expressão é assacar contra a honra de pessoa pública utilizando documentos de autenticidade altamente duvidosa e depois fazer mea culpa na seção “Erramos”.

17. Liberdade de expressão é submeter decisões editoriais a decisões comerciais de empresas e emissoras de comunicação.

18. Liberdade de expressão é somente dar ampla divulgação a pesquisas de opinião em que os resultados sejam palatáveis ao veículo de comunicação.

19. Liberdade de expressão é não ter visto “Lula, o filho do Brasil” e considerá-lo péssimo produto cinematográfico sem ao menos tê-lo assistido.

20. Liberdade de expressão é minimizar o descaso do poder público ante as enchentes de São Paulo e reduzir candidato à presidência a mero poste.

21. Liberdade de expressão é ter dois pesos em política externa: Cuba é o inferno e China é o paraíso.

22. Liberdade de expressão é demonizar movimentos sociais e defender a todo custo latifúndios vastos e improdutivos.

23. Liberdade de expressão é usar uma concessão pública para aumentar os níveis de audiência com o uso perverso de crianças no papel de vilões.

24. Liberdade de expressão é desqualificar quem não aprecia a programação servida pelo Instituto Millenium.

25. Liberdade de expressão é rejeitar in totum toda e qualquer proposição da Conferência Nacional de Comunicação.

26. Liberdade de expressão é apostar em quem ofereça garantias robustas visando manter o monopólio dos atuais donos da mídia brasileira.

27. Liberdade de expressão é obstruir qualquer caminho que conduza mecanismos de democracia participativa.

28. Liberdade de expressão é fazer coro contra qualquer governo de esquerda e se omitir contra malfeitorias de qualquer governo de direita. Ou vice-versa.

29. Liberdade de expressão é fugir como o diabo foge da cruz de expressões como liberdade, democracia, cidadania, justiça social, controle social da mídia.

30. Liberdade de expressão é lutar para manter o status quo: o direito de informar é meu e ninguém tasca.

Washington Araújo é jornalista e escritor. Mestre em Comunicação pela UNB, tem livros sobre mídia, direitos humanos e ética publicados no Brasil, Argentina, Espanha, México.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Mulheres do campo e da cidade unidas na luta contra o agronegócio e pela soberania alimentar

Neste mês em que se comemoram os 100 anos do 8 de março como dia
internacional de luta das mulheres, nós trabalhadoras do campo e da cidade
do Rio Grande do Sul estamos novamente nas ruas. Este ano nossa mobilização
tem como principal objetivo denunciar para a sociedade que a maior parte da
comida que chega a mesa da população brasileira não é alimento, é veneno.

O Brasil é campeão mundial do uso de agrotóxicos, que são venenos muito
perigosos usados na agricultura que provocam muitas doenças para
produtoras/es e consumidoras/es e grandes impactos ambientais. Além disso, a
maior parte dos produtos industriais que comemos é fabricada com soja
transgênica que também causa muito mal à nossa saúde.

E quem come esta comida envenenada? Somos nós, pobres. São as mulheres e
homens trabalhadores que recebem baixos salários ou estão desempregados e
escolhem os alimentos pelo preço não pela qualidade. São as pessoas sem
terra, sem teto, que se alimentam graças às cestas básicas. Os ricos têm
opção de comer produtos orgânicos, cultivados sem venenos.

Os agrotóxicos e os transgênicos não servem para matar a fome do povo, e sim
para matar a fome de lucro das empresas do agronegócio, a maioria delas
multinacionais. Esses produtos envenenam as terras, as águas e
principalmente as pessoas.

“Leite materno só é fonte de vida quando as mães comem alimentos saudáveis.”

Nesta mobilização estamos amamentando esqueletos para denunciar a população
em geral, e principalmente às mulheres, que quando comemos comida envenenada
e damos o peito aos nossos filhos ao invés de alimentarmos a vida
transmitimos a morte.


As doenças causadas por agrotóxicos são transmitidas de geração para
geração, e um dos modos de transmissão é através do leite materno. No
entanto, o mesmo governo que faz campanhas para incentivar as mulheres a
amamentar, financia o agronegócio que produz a comida envenenada para o povo
pobre, contaminando o leite da maioria das mães brasileiras.

“A gente não quer só comida”

Nós mulheres que passamos boa parte de nossas vidas envolvidas no cultivo
e/ou no preparo da comida para garantir saúde à nossa família estamos nas
ruas para gritar em alto e bom som que gente não quer só comida, a gente
quer alimento saudável, a gente quer soberania alimentar!
Para o agronegócio o lucro está acima da vida. O agronegócio faz mal a saúde
do povo e do meio ambiente! E os governos estadual e federal que financiam o
agronegócio estão usando o dinheiro público para bancar o envenenamento da
população pobre, a contaminação de nossas terras e águas.

“Estamos em luta contra...”

Contra o agronegócio, um modelo de produção agrícola que se sustenta na
superexploração do trabalho das pessoas, na contaminação dos alimentos, na
destruição de nossas riquezas naturais. Lutamos contra o uso de recursos
públicos para financiar a contaminação do povo e do meio ambiente; Estamos
em luta contra todas as formas de violência contra mulheres, incluindo a
imposição de um padrão alimentar que não respeita os costumes alimentares e
causa muitos males à saúde.

“Estamos em luta por...”

Soberania Alimentar - com reforma agrária, com geração de emprego e vida
digna para as populações camponesas, com agricultura ecológica que respeita
a diversidade de biomas e de hábitos alimentares. Os governos se dizem
preocupados com a segurança alimentar, querem que as pessoas tenham várias
refeições por dia. Mas tão importante quanto a quantidade da comida é a
qualidade do que comemos. Por isso não basta segurança alimentar, precisamos
construir a Soberania Alimentar.

Mulheres da Via Campesina, do MTD, da Intersindical e do coletivo de
mulheres da UFRGS.

Porto Alegre, março de 2010.

sexta-feira, 5 de março de 2010

O que os olhos não veem


Por Washington Araújo. Jornalista e escritor, mestre em Comunicação pela UnB.

Não há nada melhor que viver a vida neste meu Brasil brasileiro onde o
coqueiro dá coco. Ao menos na teoria, viver a vida é bom. Ora, ninguém
pode afirmar que o bom é viver a morte, e se existe vida há que se
viver. Nada mais óbvio. Marca do novelista global Manoel Carlos, a
obra em andamento conta também com histórias reais de superação e tudo
contado na eternidade dos 60 segundos logo após o último bloco do
capítulo diário de Viver a vida, a novela.

Em breve a novela seguirá para seu fim e até o momento quase nada tem
sido escrito por especialistas da mídia sobre as aberrações que o
folhetim apresenta. Mau-caratismo, traição, adultério, ciúme, inveja,
alcoolismo e uso de drogas se apresentam no horário nobre toda santa
noite como aperitivo antes do desbunde geral em que se transformou o
que já não era bom, o famigerado Big Brother Brasil.

As “vinhetas de superação” trazendo ao horário nobre gente sofrida,
abandonada, envolvida nas drogas ou no crime, pessoas portadoras de
necessidades especiais e vítimas de todo tipo de violência,
testemunham como foi bom ter dado a volta por cima. Porque nesse
horário somente essas pessoas sabem como é viver a vida, enfrentar os
desafios, superar as debilidades. Na novela tudo é caricato, tosco e
apelativo. Personagens quando choram parecem estar gargalhando por
dentro, e quando falam de amor optam pelo desamor, focam as desilusões
e nossas pequenas tragédias humanas.

A realidade no folhetim é absolutamente virtual. Basta ver a favela de
Viver a vida. Tem até jantar à luz de velas. Balas perdidas? Existe
isso? Onde? Quem? O hospital do Dr. Moretti é imenso pátio de
diversões onde os médicos estão sempre na lanchonete, colocando em dia
seus problemas amorosos e nunca incomodados por pacientes alquebrados,
gente entre a vida e a morte como é tão comum e mesmo rotineiro em
hospitais. A pousada de Búzios tem clima de Copacabana Palace. Tudo na
pousada é muito limpo, decoração de primeira, natureza exuberante,
ninguém parece trabalhar mas tudo está sempre nos trinques e hospedes
que é bom, se existem, não dão as caras. Faltou a Manoel Carlos a
vivência de um feriadão em pousada de Salvador, Porto Seguro, Natal ou
Florianópolis.

Trabalho infantil

Viver a vida é um vale de lágrimas do início ao fim. As pessoas choram
sem parcimônia. E com gosto. Há aquela que chora porque não consegue
parar de beber. Há aquela outra que chora porque está tetraplégica.
Outra chora porque não consegue consumar o adultério. Há quem chore
porque é abandonada pelo noivo há poucas horas do casamento. Outra
chora porque o marido não aceita conviver em harmonia com os enteados,
filhos do primeiro casamento. Tem quem chore porque a irmã
tetraplégica recebe mais atenção da mãe e das irmãs. Há quem chore
porque os filhos gêmeos estão apaixonados pela mesma pessoa. Tem quem
chore por acreditar que uma pessoa tetraplégica não pode fazer ninguém
feliz. É o folhetim dos vilões-fashion, gente descolada, rica e que
prefere viver a vida na base de quanto mais fútil for a vida, melhor.

Até aqui nada de muito novo. O que não entendo é as autoridades
responsáveis pela proteção da infância e da adolescência deixarem uma
graciosa menina de apenas oito anos de idade interpretar uma vilã. É o
que acontece com a Rafaela interpretada pela espertíssima Klara
Castanho. Vemos todas as noites sua infância sendo roubada. Assistimos
impassíveis ao seqüestro de uma inocência que deveria ser preservada,
inicialmente por seus pais, depois por esse veículo de comunicação que
é uma concessão pública chamada televisão e depois pelo pessoal do
judiciário, das tais varas da Criança e do Adolescente.

Rafaela se pinta com as cores da vida adulta, se veste insinuante como
é comum aos jovens, é a cara do consumo-mirim sempre instigando sua
mãe a comprar isso e aquilo mesmo que não tenha rendimento para tal. O
pior nem é isso. O pior é o retrato de criança manipuladora e sensual,
chantagista e dona de opinião sobre assuntos bem complexos para mente
em formação como é o caso de aborto, mãe esperando segundo filho, vida
de mãe solteira e testemunha de tórrida cena de adultério.

Será que ninguém observa nada disso? Será que ninguém vai trazer à
mesa a discussão sobre trabalho infantil em programas para público
adulto como é uma novela das oito? Será que toda e qualquer
manifestação artística é passível de ser exercida por crianças e
adolescentes? Pelo andar da carruagem não me causará espanto se em
capítulo futuro a pequena Rafaela se transformar em psicopata-mirim.
Mercado e audiência

É que ninguém está nem aí para colocar em prática dispositivos como o
Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069, de 13/7/1990),
calhamaço que conta com impressionantes 267 artigos. Destes faço
questão de enunciar apenas seu Artigo 3º:

“A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais
inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que
trata esta Lei, assegurando-se-lhes, por lei ou por outros meios,
todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o
desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em
condições de liberdade e de dignidade.”

A caracterização dada à personagem Rafaela faculta à atriz-mirim Klara
Castanho seu desenvolvimento “mental, moral, espiritual e social, em
condições de liberdade e de dignidade”? A meu ver, se dá exatamente o
contrário. Rafaela é tratada como coisa a ser transportada na vida
cheia de peripécias de sua mãe Dora; interpõe-se com protagonismo
principal na relação de sua mãe com quem poderia ser seu bisavô, o
romântico Maradona, dono da pousada; os diálogos de Dora com Rafaela
se sustentam em mentiras escancaradas e em meias verdades; os olhares
de “brinquedo assassino” de Rafaela ao iniciar sua precoce carreira de
chantagista mirim com a principal protagonista do folhetim, Helena,
não deixam dúvidas que coisa muito mais escabrosa vem pela frente.

Enquanto a trama se desenrola, Rafaela passa a freqüentar com maior
insistência o imaginário de milhões de crianças da mesma idade vindo a
se tornar um modelo infantil a ser seguido com toda sua carga de
manipulação e astúcia poucas vezes vista em personagens adultas. E não
encontramos contraponto. Isso acontece porque levantar qualquer
bandeira que vise proteger a integridade moral e a dignidade de uma
criança explorada por um folhetim global é quase cometer crime de
lesa-pátria. E não faltarão pessoas a torcerem o nariz para esse meu
texto sob o pretexto de que seria incitação à censura. Nada mais
ridículo que isso.

O ponto é que enquanto o Deus-Audiência estiver em seu trono nada
poderá mudar. Nem que preceitos constitucionais sejam violados e que
sejam arquivadas no baú das coisas imprestáveis imagens de crianças
inocentes, bondosas, cheias de compaixão, educadas, inteligentes,
respeitadoras dos mais velhos… e tantos outros predicados do tempo em
que andar a pé era novidade.

Fonte – Observatório da Imprensa

CARTA DE IMPERATRIZ – MARANHÃO EM DEFESA DA AMAZÔNIA, DO PLANETA E DA VIDA

Nós, representantes de Movimentos Sociais, Ambientais, Estudantis Universitários e Secundaristas, Sindicais, Pastorais Sociais, Quebradeiras de Coco, de Mulheres e Feministas e outras entidades da Sociedade Civil Organizada, reunidos no Sindicato de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Imperatriz para discutir a proposta de alteração do Código Florestal Brasileiro, a Lei de Política Nacional de Meio Ambiente, a Lei de Crimes Ambientais, a Lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação; vimos por meio deste, apresentar à Comissão Especial da Câmara Federal o Nosso Posicionamento:    
1)    Somos contrários à forma intempestiva com que está sendo conduzido o processo de alteração do Código Florestal, posto que vem alijando a ampla participação da Sociedade Civil Organizada;

2)    A alteração do Código como está sendo proposto representa um explícito contra censo, pois vai contra o que há de mais avançado na mentalidade mundial atual – a necessidade da PRESERVAÇÃO e mais que isso, a recuperação radical do que já foi devastado pela regente matriz tecnológica;

3)    Entendemos que a questão central a ser debatida com vista à uma radical alteração é quanto à MATRIZ TECNOLÓGICA, predominante do agronegócio brasileiro, que é ecologicamente insustentável, economicamente excludente e socialmente injusta;

4)    Propomos que os órgãos ambientais (IBAMA, SECRETARIAS E MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE), cumpram efetivamente com seus papeis de fiscalização e punição dos crimes cometidos contra o meio ambiente em explícito desacordo com o Código Florestal Vigente;

5)    Conclamamos a Comissão Especial da Câmara Federal a fazer frente ao cumprimento da função social e AMBIENTAL da terra, desapropriando os imóveis rurais que descumprem tais funções, conforme autoriza a Constituição Federal da República;


6)    Entendemos que qualquer alteração na legislação ambiental só será admissível se for, primeiro, para garantir um tratamento diferenciado à agricultura  familiar, através da adoção de critério da proporcionalidade na definição dos percentuais  imobiliários a ser destinados as áreas de reserva permanente e reserva legal, bem como para adotar o conceito de agricultor familiar contido na lei 11.326/2006 para todos os fins de direito; segundo, para estabelecer a compensação do agricultor ou empreendedor familiar pela realização de serviços de preservação ambiental.

7)    Finalmente, manifestamos nossa total defesa de que o Estado do Maranhão continue fazendo parte da AMAZÔNIA LEGAL.

Atenciosamente,
FETAEMA- Federação dos Trabalhador( a)s na Agricultura,
CPT- Comissão Pastoral da Terra,
MST – Movimento dos  Sem Terra
Sindicato dos Trabalhadores  e Trabalhadoras Rurais de Imperatriz,
Sindicato dos Trabalhadores  e Trabalhadoras Rurais de João Lisboa,
Sindicato dos Trabalhadores  e Trabalhadoras Rurais de Cidelândia,
Sindicato dos Trabalhadores  e Trabalhadoras Rurais de Davinópolis,
Sindicato dos Trabalhadores  e Trabalhadoras Rurais de Estreito,
Sindicato dos Trabalhadores  e Trabalhadoras Rurais de Açailândia,
Sindicato dos Trabalhadores  e Trabalhadoras Rurais de Senador Lá Rocque,
Sindicato dos Trabalhadores  e Trabalhadoras Rurais de Arame,
Sindicato dos Trabalhadores  e Trabalhadoras Rurais de Porto Franco,
Sindicato dos Trabalhadores  e Trabalhadoras Rurais de São Francisco do Brejão,
Sindicato dos Trabalhadores  e Trabalhadoras Rurais de Buritirana,
Pólo Sindical da Região Tocantina, 
CENTRU- Centro de Educação e Cultura do Trabalhador Rural,
ANARA, Associação Nacional de Apoio à Reforma Agrária
Comitê Amazônia Somos Nós,
Centro de Direitos Humanos Padre Josimo,
Centro Acadêmico de Geografia UEMA
Centro Acadêmico de História da UEMA,
Centro Acadêmico de Matemática,
Centro Acadêmico de Biologia UEMA,
Coletivo de Cultura e Meio Ambiente Arte Alternativa,
Complexo  Associação Planetária (Ong),
Pastorais Sociais da Igreja Católica,
MMC - Movimento de Mulheres Camponesas
DCE - Diretório Central dos Estudantes UEMA
Fórum de Mulheres de Imperatriz,
PSOL - Partido Socialismo e Liberdade ,
Grupo de Mulher: Ética e Libertação,
 GAPD’S.- Grupo de Prevenção as  DST’s e Aids
            
Amazônia somos todos nós!
 Imperatriz, 01 de Março de 2010


quinta-feira, 4 de março de 2010

Modernidade

Por Frei Betto

Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da
Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos,
recolhidos e em paz nos seus mantos cor de açafrão. Outro dia, eu
observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera
cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos,
geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado
café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro
café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: 'Qual dos dois
modelos produz felicidade?'

Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e
perguntei: 'Não foi à aula?' Ela respondeu: 'Não, tenho aula à tarde'.
Comemorei: 'Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais
tarde'. 'Não', retrucou ela, 'tenho tanta coisa de manhã...' 'Que
tanta coisa?', perguntei. 'Aulas de inglês, de balé, de pintura,
piscina', e começou a elencar seu programa de garota robotizada.
Fiquei pensando: 'Que pena, a Daniela não disse: 'Tenho aula de
meditação!

Estamos construindo super-homens e super mulheres, totalmente
equipados, mas emocionalmente infantilizados.

Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis
livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de
ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas
me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho
ótimo, vamos todos morrer esbeltos: 'Como estava o defunto?'. 'Olha,
uma maravilha, não tinha uma celulite!' Mas como fica a questão da
subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?

Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Trancado em seu
quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem
nenhuma preocupação de conhecer o seu vizinho de prédio ou de quadra!
Tudo é virtual. Somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos
virtuais. E somos também eticamente virtuais...

A palavra hoje é 'entretenimento' ; domingo, então, é o dia nacional da
imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e
se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela.
Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de
que felicidade é o resultado da soma de prazeres: 'Se tomar este
refrigerante, vestir este tênis, usar esta camisa, comprar este
carro,você chega lá!' O problema é que, em geral, não se chega! Quem
cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba precisando de um
analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.

O grande desafio é começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse
condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se
viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são
indispensáveis: amizades, autoestima, ausência de estresse.

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Na Idade Média, as
cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil,
constrói-se um shopping-center. É curioso: a maioria dos
shoppings-centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas;
neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de
missa de domingo. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não
há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas...

Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela
musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas
aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por
belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos
céus. Deve-se passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no
cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar,
certamente vai se sentir no inferno... Felizmente, terminam todos na
eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o
mesmo hambúrguer do Mc Donald...

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas:
'Estou apenas fazendo um passeio socrático.' Diante de seus olhares
espantados, explico: 'Sócrates, filósofo grego, também gostava de
descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando
vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: "Estou apenas
observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz !"

Minas mobilizada para audiencia das cotas

Minas Gerais já está preparada para participar da audiência sobre as ações afirmativas na educação superior brasileira (dias 3 a 5 de março). Um grupo de 28 militantes dos mais diversos setores estão arrumando as malas para ajudar na pressão popular pela continuidade das políticas de ações afirmativas na educação pública do Brasil. O grupo organizado pelo EDUCAFRO, UNEGRO e outras entidades, fez "vaquinha"entre os sindicatos, rateou os custos da viagem entre os interessados em participar da audiência e após duas reuniões anteriores, decidiu que não arreda pé da porta do Supremo Tribunal Federal enquanto os juízes não deciderem pela continuidade dessas ações tanto na UNB quanto nas mais de 40 universidades que adotam ações afirmativas. Também participam da mobilização um grupo de alunos da UFMG do Conexoes de Saberes, programa de inclusão sócio-cultural.

Mais informações podem ser obtidas por meio do telefone 31-3271-3038 (EDUCAFRO).